A Lama do Caso Master Respingando na Demogracinha. E aí Generais???

C. Neander Lopes

Jornalista Independente

Com a lama do caso Master respingando em ministros, o verdadeiro “ato golpista” que salta aos olhos não é o do dia 8 de janeiro, mas o de um STF que se meteu nas eleições de 2022, atuou de forma intrusiva e hoje aparece envolvido em lobby, escândalos e relações nada republicanas. O que milhares de pessoas fizeram em Brasília foi protesto – legítimo, ainda que tenha havido vandalismo – e acabou manipulado depois como combustível de uma narrativa pronta de “golpe” e “terrorismo” para justificar perseguição política em massa.

O rótulo de “ato golpista” virou coringa: com base nele, o STF se autorizou a tratar todo manifestante como inimigo do regime e a distribuir penas desproporcionais, enquanto blindava a si mesmo e ao próprio sistema eleitoral de qualquer crítica. Em vez de discutir o mérito da insatisfação com um processo de 2022 conduzido sob censura, decisões de ofício do TSE e atuação política explícita de ministros, especialmente Alexandre de Moraes e Barroso, a Corte preferiu carimbar metade do país como ameaça à democracia.

É nesse contexto que entra a cobrança dos generais a Lula: não se trata, para eles e para boa parte da sociedade, de “salvar patentes” de militares supostamente golpistas, mas de fazer justiça num ambiente em que quem julga está seriamente sob suspeita. Falar em “corporativismo fardado” é conveniente para quem quer esconder o elefante na sala: um Supremo que se viu acima de qualquer controle, interferiu no jogo eleitoral, ampliou poderes do TSE contra a própria liberdade de expressão e agora aparece envolvido em conversas e arranjos com banqueiro que circulava entre autoridades.

Ao usar 8 de janeiro como marco oficial do “golpe” que nunca se consumou, o sistema construiu um álibi perfeito para ampliar o alcance de inquéritos, prender em massa, cassar direitos políticos e esmagar adversários com o selo da “defesa da democracia”. Em paralelo, ignorou o óbvio: que aquela manifestação, por mais desorganizada e infiltrada que tenha sido, nasceu da sensação generalizada de que STF e TSE haviam escolhido lado, interferido no Congresso (caso do voto impresso) e operado o processo eleitoral com parcialidade escancarada.

A ironia é que, enquanto o sistema carimba de “golpistas” quem gritou na rua, vão surgindo indícios de que o verdadeiro desvio institucional mora dentro dos próprios tribunais, em gabinetes onde se mistura poder de julgar, trânsito de advogados ligados a ministros e conversas de WhatsApp com banqueiros investigados. Se há um movimento antidemocrático em curso, ele está menos nas bandeiras dos manifestantes e mais na mão pesada de quem se autorizou a vigiar, censurar, punir e escolher quem pode falar – sempre em nome de uma democracia que, curiosamente, nunca contempla o lado que perdeu em 2022.

Fonte: Revista Sociedade Militar